A história das “ruínas da UnB”, estrutura de concreto erguida pela Escola Superior de Guerra e abandonada pelo poder público
Vista aérea: a água e o cerrado invadiram a construção (Foto: Google / Divulgação)
Por: Paulo Lannes - Revista Veja Brasília)
Quem segue pela rua em frente ao Iate Clube de Brasília depara com um trecho de terra e, logo adiante, um terreno cheio de lixo. Se o visitante atravessar a sujeira, vai encontrar algo surpreendente: uma gigantesca estrutura inacabada de concreto. Ao longo das últimas décadas, a construção ficou conhecida como as “ruínas da UnB”, uma referência à vizinha Universidade de Brasília.
Vista do chão, a obra exibe um aspecto intrigante e, até, assustador. As grossas paredes com poucas portas e sem janelas avançam até o Lago Paranoá. Escadas sem uso descem para o subsolo parcialmente alagado. O cerrado invade os escombros. Olhando do alto, percebe-se que a edificação misteriosa tem formato triangular.
Grama alta, escadas alagadas e vãos arruinados: esqueleto de um prédio à beira do Lago Paranoá (Fotos: Roberto Castro)
Erguido durante a ditadura militar, o esqueleto de concreto permaneceu abandonado por um longo tempo. Sem um órgão que assumisse a propriedade, o imóvel se tornou foco de especulações sobre sua origem e destinação. As mais frequentes apontavam as Forças Armadas como responsável pelas obras. VEJA BRASÍLIA pesquisou o enigma para reconstituir a história completa do estranho edifício.
As “ruínas da UnB” foram erguidas pela Escola Superior de Guerra (ESG), instituição responsável pelo planejamento estratégico da defesa e da segurança do Brasil. Pelo projeto original, o prédio se destinaria a abrigar a sede da ESG, hoje localizada no bairro da Urca, no Rio de Janeiro. Em 1973, o então presidente, general Emílio Garrastazu Médici, aprovou a transferência da escola e o início da obra. Os trabalhos começaram no ano seguinte, sob a responsabilidade do escritório de Sérgio Bernardes, arquiteto conhecido na capital por construir o mastro da bandeira, na Praça dos Três Poderes, e o Centro de Convenções Ulysses Guimarães.
No croqui de Bernardes, previa-se um prédio com três pavimentos, 140 metros de extensão e 20 metros de largura nas extremidades do triângulo. Seria composto de cinco auditórios e salas voltadas para as áreas administrativa e pedagógica. A construção apresentava, ainda, uma inovação arquitetônica: instalada na beira do Paranoá, ficaria, em parte, dentro da água. “O edifício espalha-se pelo lago integrando um conjunto urbano-paisagístico complementado por bosques e gramados”, diz um documento produzido pelo escritório do autor do projeto.
Desenho original: o projeto da obra, iniciada em 1973 e nunca concluída, tem a assinatura do arquiteto Sérgio Bernardes (Foto: Divulgação)
Em março de 1974, o general Ernesto Geisel substituiu Médici na Presidência da República e, cinco meses depois, deu ordem para interromper a obra. Uma reportagem publicada em 14 de agosto de 1975 pelo Jornal do Brasil diz que o motivo da suspensão foi financeiro. Com o fim do período do “milagre econômico”, as verbas haviam escasseado e a sede da ESG em Brasília teria deixado de ser prioridade.
A família de Bernardes tem outra versão. “Sérgio sugeriu uma abordagem conceitual diferente para o projeto da escola”, diz Kykah Bernardes, viúva do arquiteto. “Ele previa uma aproximação com estudantes e com a universidade”, explica. Para Kykah, Geisel descobriu as intenções do arquiteto e resolveu desfazer a parceria. João Pedro Backheuser, escritor de um ensaio sobre Sérgio Bernardes, reforça essa tese. “Da noite para o dia, todos os projetos de Bernardes foram cancelados”, afirma. Sem o dinheiro previsto, o arquiteto se viu imerso em dívidas, declarando falência nesse mesmo período.
Cinco anos depois do cancelamento dos trabalhos, o aviso ministerial 1383/79, do chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, determinou que o terreno fosse cedido ao hoje extinto Departamento de Administração do Serviço Público (Dasp). Em parceria com a UnB, o órgão deveria construir no local o Clube do Servidor Público, mas esse projeto nunca saiu do papel.
A ideia de transferir a sede da ESG para Brasília foi retomada em 2010. De acordo com o plano, a escola será estruturada em dois câmpus, um no Rio e o outro em Brasília. Na capital, o novo prédio ficará na 903 Sul, em um terreno do Ministério da Defesa. Ainda hoje, as “ruínas da UnB” permanecem com futuro incerto. O imóvel faz parte do programa Brasília Cidade Parque, administrado pela Secretaria do Meio Ambiente e pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram), mas, até agora, não há previsão de obras na área. Um trecho da música Fora da Ordem, do cantor Caetano Veloso, parece ilustrar bem o caso: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”.
Colaborou Rafaela Lima
CHIQUINHO DORNAS

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