Ligações cariocas com o jogo do bicho do DF Com lucro de R$ 3 milhões mensais na capital federal, quadrilha recebia ajuda e auxiliava contraventores no Rio de Janeiro. Policiais prenderam dois supostos chefões do esquema em Brasília e apreenderam R$ 2,75 milhões. ...
Ao longo de15 anos, grandes bicheiros ficaram milionários com a exploração da jogatina ilegal no Distrito Federal. Dois deles, que atualmente comandavam o esquema em 11 cidades da capital federal, lucravam aproximadamente R$ 3 milhões mensais e trocavam informações com contraventores do Rio de Janeiro e de Tocantins. Ontem, seis suspeitos — entre eles, os dois líderes — acabaram presos durante Operação Armadilha, da Polícia Civil. Com eles, foram apreendidos R$ 2,75 milhões e US$ 10 mil. Entre os investigados, há também um sobrinho do falecido bicheiro carioca Castor de Andrade.
Divididos em duas áreas do DF, Hélio César Alfinito, o Helinho, e João Carlos dos Santos lideravam duas organizações criminosas voltadas para a articulação do jogo ilegal em 11 cidades da capital. Gerenciavam e comandavam pelo menos 12 pessoas e faziam a lavagem de dinheiro em empresas de fachada. Uma delas era uma imobiliária instalada no Lago Sul. As apurações da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Deco), iniciadas há seis meses, revelaram que eles tinham auxílio de familiares — responsáveis por gerenciar os negócios ilegais —, de apontadores, que ficavam nas ruas, em pontos fixos, seduzindo apostadores, e de dois policiais aposentados. As apostas eram feitas eletronicamente e o sorteio ocorria no Rio de Janeiro.
As investigações comprovaram ainda uma forte ligação entre os contraventores de Brasília com bicheiros do Rio. “Eles trocavam informações com bicheiros de outros estados sobre tecnologia das máquinas. Também adquiriam conhecimento sobre o próprio jogo do bicho”, detalha o chefe da Deco, Fábio de Souza. Havia ainda ajuda financeira. Se no DF algum apostador tivesse a sorte de ser contemplado com uma alta premiação, os bicheiros cariocas ajudavam no pagamento e vice-versa. A conexão com o Rio de Janeiro foi detectada também com um dos investigados. César Andrade de Lima, sobrinho de Castor de Andrade, teria recebido altas quantias depositadas por homens ligados a João Carlos dos Santos, em anos passados. Apesar de investigado e morador do Rio, César não foi preso.
Grana em casa
O esquema liderado por Hélio César e João Carlos no DF foi desarticulado nas primeiras horas de ontem. Por volta das 6h, cerca de 200 policiais civis entraram simultaneamente em 27 endereços vinculados aos bicheiros, no DF e em Goiás. Certos da impunidade e de que não seriam surpreendidos pela polícia, guardavam grandes quantias em casa e nos escritórios. Só em espécie, foram apreendidos R$ 2,75 milhões e US$ 10 mil — maior apreensão de dinheiro do DF. Também recolheram joias e veículos (leia mais na página 20). “Eles pintaram e bordaram no DF por muitos anos. Mas estamos colocando um fim nisso. Não estamos alcançando apostadores. Estamos batendo de frente na lavagem, na organização criminosa”, ressalta Fernando Cocito, adjunto da Deco.
Além dos dois líderes, os policiais prenderam, em flagrante, Leonardo Fernandes Lima; João Rufino da Silva, Jerônimo Natividade e o PM aposentado Williams Fernandes de Morais (veja Quem é quem). Eles devem responder pelo crime de associação criminosa para a prática de jogo do bicho e lavagem de dinheiro. A pena pode chegar a 10 anos e prisão. A reportagem não conseguiu contato com os advogados dos suspeitos.
Equipe de delegados envolvidos na operação: 200 policiais e até um helicóptero para desarmar a quadrilha
Contraventor poderoso
Castor Gonçalves de Andrade e Silva ficou conhecido como um dos bicheiros mais poderoso do país. O pai dele, Eusébio de Andrade, já tinha feito muito dinheiro com a contravenção. O filho formou-se em direito e cresceu o negócio. Sua influência era tão grande que até quando foi preso recebeu regalias. Conta-se que a cela onde ficou, a partir de 1994, tinha até frigobar. Também era presidente de honra do time do Bangu e patrono da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Morreu no dia 11 de abril de 1997.
Quem é quem
Veja a função de cada um dos presos:
» Hélio César Alfinito: um dos líderes do grupo. Comandava o jogo do bicho na Asa Sul, no Cruzeiro, no Guará, no Núcleo Bandeirante, no Riacho Fundo e em São Sebastião.
» João Carlos dos Santos: também apontado como líder. Comandava a jogatina ilegal na Asa Norte, em Ceilândia, no Paranoá, em Sobradinho e em Planaltina.
» Leonardo Fernandes Lins: é genro de Hélio César e gerenciava o jogo nas regiões comandadas pelo sogro. Era responsável também pelo escritório do grupo, no Lago Sul.
» João Rufino da Silva: braço direito de João Carlos, era responsável por gerenciar os pontos de jogo do bicho ligados a João Carlos. Apontadores da quadrilha prestavam contas a ele.
» Jerônimo Natividade: conhecido como Jejê, prestava contas a Leonardo e também tinha a confiança de Hélio. Jerônimo cuidava das apurações das apostas e organizava os locais onde ficariam os apontadores.
» Williams Fernandes de Morais: policial militar aposentado, foi preso por posse ilegal de arma e munições. Segundo as investigações, ele fazia arrecadação e oferecia segurança para a quadrilha.
Para saber mais
A divisão
em Brasília
Com uma clara divisão de tarefas e o comando definido, a organização criminosa desarticulada na manhã de ontem era liderada por dois homens: Hélio César Alfinito e João Carlos dos Santos. Eles dividiram a capital em duas grandes áreas e atuavam com ajuda de familiares e apontadores. As apostas eram feitas em máquinas semelhantes às usadas em transações com cartões bancários. Cada apostador investia o valor que quisesse, e a máquina transmitia os jogos para centrais no DF. O sorteio ocorria no Rio de Janeiro. Para fazer a lavagem do dinheiro, os suspeitos usavam empresas de fachada. Uma delas, identificada pela polícia, é uma imobiliária e funciona no Lago Sul.
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