Com 982 radares instalados em suas vias, o Distrito Federal tem a malha urbana mais vigiada do país

O técnico Rodrigo Caetano: festival de ofensas enquanto faz a manutenção dos equipamentos (Foto: Roberto Castro)
Assim que chegou a Brasília, há cinco anos, o personal trainer Fernando Bérgamo pegou o carro e deu uma volta para conhecer a cidade. Rodou pelo Eixinho Norte, L4 e por outras vias famosas. Ficou tão deslumbrado com a paisagem que rapidamente se lembrou de Djavan cantando “céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim” — verso da música Linha do Equador. Depois de algumas semanas, porém, o passeio teve um desdobramento nada prazeroso. Ele levou um susto quando o carteiro lhe entregou em casa três multas de trânsito, totalizando 240 reais. Todas elas relacionadas a excesso de velocidade e captadas por radar. Vindo de São Paulo, o professor ficou espantado com a voracidade dos equipamentos de fiscalização eletrônica instalados nas vias do Distrito Federal. Desde então, ele passou a pegar leve no acelerador. “Nunca vi uma cidade com tantos pardais”, queixa-se Bérgamo.
Na verdade, nem ele nem ninguém viram até hoje no país uma cidade com malha urbana tão vigiada como a de Brasília. A capital é líder nacional no que se refere a câmeras de trânsito distribuídas pelas ruas. São 982 e há planos para a instalação de mais 100 em 2014. Mesmo sendo ano eleitoral, o Departamento de Trânsito (Detran) do DF pretende aumentar a quantidade dos temidos radares móveis. Vistos com antipatia pela maior parte dos motoristas, eles registram os abusos de velocidade camuflados, em pontos escolhidos a dedo. “Podem reclamar da nossa fiscalização eletrônica. O importante é que o número de mortes nas vias com mais radares está caindo”, comemora José Lima Simões, diretor de engenharia de trânsito do Detran. Ele próprio conta que já foi multado uma vez por excesso de velocidade.

Com tantos equipamentos distribuídos pelas ruas, esse tipo de fiscalização também se transformou em uma grande fonte de arrecadação do governo do Distrito Federal (GDF). Só no ano passado, os pardais aplicaram mais de 3 milhões de multas e proporcionaram 60 milhões de reais aos cofres públicos. São tantos aparelhos ávidos por gente com o pé pesado que ficou difícil encontrar um motorista sem um registro de multa. “Eu ganhei a minha porque estava distraído e me excedi um pouco”, confessa Murilo de Melo Santos, superintendente de trânsito do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) do DF. Até a chefe do Núcleo de Defesa Prévia do órgão, Amanda Leandro Genu, conta que foi flagrada pelas lentes que tudo veem. “Fui multada por um radar do Detran, mas recorri porque não achei justo”, diz. Só para contextualizar: Amanda comanda no DER o departamento responsável por acolher recursos que pedem, com as mais diversas alegações, o cancelamento de infrações de trânsito.
O workaholic das ruas
Camuflado em galhos, o aparelho lidera flagrantes

O esperto: encoberto por folhas, este pardal registra mais de 100 autuações por dia (Foto: Michael Melo)
Em um poste recuado, escondido entre as folhas de uma árvore, o radar campeão de multas do DF está localizado no quilômetro 2 do Eixão Sul (DF-002), no sentido Rodoviária-Aeroporto. Nesse trecho, circulam 60 000 veículos diariamente. Dissimulado, ele flagrou 42 345 veículos a mais de 80 quilômetros por hora — o limite máximo da via — apenas em 2013. Há boas explicações para a alta produtividade do aparelho. Além de estar camuflado, o pardal ganancioso fica a somente 200 metros do equipamento anterior. Como a via é caminho do aeroporto, muitos passageiros atrasados aproveitam para pisar fundo no acelerador e acabam autuados pelas lentes ávidas por multas. O mecanismo menos exigido fica na Estrada Parque Península Norte (DF-009), sentido Ponte do Bragueto. Preguiçoso, no comparativo com o líder, ele aplicou 246 multas no ano passado.

EPTG: cinquenta câmeras em 20 quilômetros (Foto: Michael Melo)
O fato inusitado só ocorre porque duas instituições da esfera do GDF dividem a operação do sistema. O Detran monitora 462 equipamentos. Desses, 322 estão fora de operação desde a virada do ano por causa de um problema no processo de renovação de contrato. Como o governo local não pretende ver o número de acidentes aumentar — nem ficar sem essa gorda fonte de receita —, serão tomadas medidas emergenciais. A previsão é que esses olhos eletrônicos voltem a funcionar nos próximos dias. Os outros 520 pardais ficam sob a tutela do DER. Como nenhum desses órgãos tem estrutura nem tecnologia para operá-los, ambos firmaram acordo com empresas especializadas em montar os radares e processar as multas. O DER entregou todo o serviço para a paulista Engebras S.A. Indústria, Comércio e Tecnologia de Informática, que perdeu um contrato no Rio Grande do Sul por instalar equipamentos usados, quando a licitação exigia que todos fossem novos. No Detran, a missão foi terceirizada para três companhias: Consórcio Panavídeo-Perkons, Sarget e Consórcio SDF.
A cada mês, o DER paga à Engebras cerca de 750 000 reais. O Detran não revelou o montante do repasse feito às contratadas no ano passado, embora se trate de verba pública. De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, o dinheiro proveniente dessa fiscalização deve ser aplicado em sinalização, policiamento e educação de trânsito. As duas instituições, no entanto, não disponibilizam dados sobre o destino exato dos recursos.


Uma comparação simples dá o tom do rigor da vigilância em nossas vias. Enquanto o município de São Paulo apresenta uma frota de 7 550 402 veículos, entre motos, carros, ônibus e caminhões, o Distrito Federal reúne 1 478 028. Embora na maior cidade do país estejam registrados cinco vezes mais automóveis do que no DF, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) — órgão que centraliza a fiscalização do trânsito paulistano — mantém nas ruas 588 radares. Ou seja, há um aparelho para cada 12 840 veículos. Em Brasília, o superlativo impera nesse quesito. Existe um equipamento para cada 1 505 carros. As pistas da Estrada Parque-Taguatinga (EPTG), por exemplo, abrigam cinquenta pardais nos seus 20 quilômetros de extensão. Isso significa que, em média, um radar opera a cada 400 metros. Nas proximidades de Águas Claras, a distância entre eles se reduz a 200 metros.
Por isso eu corro demais...
Para se livrar das penalidades aplicadas por radares, 12 000 condutores recorreram ao GDF em 2013. O primeiro passo é contar por escrito as circunstâncias da autuação. Nessa hora, a cara de pau reina absoluta

Não somos daqui
Com mais de dez multas por excesso de velocidade, um condutor escreveu ao Detran dizendo que sofre de sonambulismo. Na madrugada, ele pega o carro e passeia pela L2 Sul e Norte. Apressado, chega a 102 km/h em vias onde não poderia trafegar a mais de 60 km/h. Para provar o distúrbio do sono, ele anexou vários laudos médicos. No entanto, as multas não foram anuladas. Na mesma linha de raciocínio, outro motorista, com diversas infrações a pagar, alegou — acredite — que a culpa é de um extraterrestre. Ele relata que fica deitado na cama enquanto um ser de outro planeta, com a mesma aparência, pega o seu carro e sai pelas ruas da capital em alta velocidade. Sua mulher também assinou um texto no qual garante ter pedido a separação depois de descobrir que o marido havia sido abduzido e, desde então, mudado de personalidade. A história sobrenatural virou motivo de riso entre os técnicos do DER.

Deus é mais
Evangélicos e católicos fervorosos evocam até o Criador na hora de se recusar a pagar multas por excesso de velocidade. Um condutor teve a coragem de argumentar no Detran que ouvia um sermão bíblico no rádio do carro e, distraído, pisou fundo “sem querer” no acelerador, passando a 90 km/h pelo radar do Eixinho Norte. No final da carta, ele pede que os funcionários do órgão pensem com carinho na possibilidade de abonar a multa e ainda pondera que está rezando por eles. Outro religioso amante da velocidade não aceita a sua infração alegando que havia saído de um culto evangélico e ainda estava em êxtase com as palavras proferidas pelo pastor. Ele acha um castigo ser obrigado a pagar 127 reais por dirigir em uma via com velocidade máxima de 40 km/h. Após suplicar para que a multa seja extinta, ele ainda deseja “que Deus ilumine a todos”.

O poder do desarranjo
Uma aluna da UnB relatou ter comido algo no restaurante universitário que não lhe caiu bem. Com dores no abdômen, ela saiu da aula às pressas. Pegou o carro e correu para casa. “Não tive como reduzir nos pardais”, justificou, alegando que precisava chegar o mais rápido possível ao banheiro. Dias depois, a estudante recebeu três multas em casa. Outro caso semelhante registrado no DER refere-se a um funcionário de uma empresa privada. Ele passou a mais de 100 km/h por quatro radares com o carro da firma. Quando as notificações das multas vieram, o chefe dele escreveu uma carta e endereçou ao órgão do governo. No final do texto, ele afirma: “Pela luz do sol que nasce todos os dias, nenhum ser humano é capaz de suportar uma diarreia profunda”. Apesar da argumentação, as multas não foram retiradas.

As vingadoras
Mulheres descontentes com os parceiros descobriram que podem se vingar com a cumplicidade dos radares. Segundo o relato de um motorista do Lago Sul com mais de 12 000 reais em multas para pagar, sua ex-mulher não aceita a separação. Há dois meses, ela foi até o estacionamento do trabalho dele, pegou o carro e passou em mais de trinta radares com velocidades de até 120 km/h. Em outro caso passional, a namorada descobriu que estava sendo traída e, com o carro do parceiro, usou e abusou dos controladores de velocidade. Algumas chegam a fazer caretas para a lente dos equipamentos. Os funcionários que analisam as contestações de multas ficam com pena, mas não há jeito. Esse tipo de infração deve ser pago pelo proprietário do carro, e não pela motorista infratora.
Tanto para o Detran quanto para o DER, não existe abuso de equipamentos nas vias do DF. Ambos alegam que a população é que solicita o uso desses controladores de velocidade para coibir atropelamentos. O DER ainda garante que evita uma exorbitância de multas ao deixar um equipamento desligado para cada conjunto de quatro. “Realmente há um certo exagero na quantidade de radares, mas precisamos considerar que Brasília tem uma malha viária propícia para o excesso de velocidade”, afirma o professor de engenharia de tráfego Paulo César Marques, da Universidade de Brasília. Um estudo científico do Laboratório de Psicologia Ambiental da mesma instituição, feito com 504 motoristas do DF, atestou que mais da metade deles trafega acima do limite permitido na via — e só pisa no breque quando enxerga uma placa advertindo que, logo adiante, há fiscalização eletrônica. “Os motoristas que correm mais sugerem que se aumente o limite de velocidade, enquanto os que correm menos pedem mais pardais e faixas de pedestres”, diz o trabalho, intituladoEssa Via Convida a Correr?.

O personal Fernando Bérgamo: três infrações na sua estreia em Brasília (Foto: Michael Melo)

Amanda Genu, responsável pelos recursos que chegam ao DER: multada pelo Detran (Foto: Michael Melo)
O técnico da Engebras Rodrigo Caetano trabalha oito horas por dia na manutenção dos radares das vias do Lago Sul e do Lago Norte e do Eixo Rodoviário. Ele afirma que é xingado várias vezes enquanto sobe num radar para trocar alguma peça. “Minha mãe, coitada, é quem mais sofre. Usam todos os palavrões para falar dela”, conta, rindo.

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