segunda-feira, 14 de abril de 2014

André Vargas: O fator eleitoral. As bravatas de um deputado enrolado


O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), tem dado sinais de que deseja celeridade no processo envolvendo o deputado André Vargas (PT-PR) no Conselho de Ética. Alves é candidato ao governo do Rio Grande do Norte e não interessa a ele ter a imagem atrelada à morosidade em um processo de cassação. Segundo interlocutores do peemedebista, o desgaste com o episódio Natan Donadon (sem partido-RO) — preso no Complexo Penitenciário da Papuda por peculato e formação de quadrilha — foi dissipado por não ser um ano eleitoral. Mas, agora, a pressão das ruas será maior...

A pressa tem a ver apenas com a candidatura ao governo. Alves e Vargas têm relação de cordialidade. O petista acompanhou o peemedebista em jantares com deputados durante a campanha à presidência da Câmara em 2013, além de algumas viagens aos estados para cabalar votos conjuntos para a Mesa Diretora.

Com a saída de Vargas do cargo de vice-presidente, abre-se a disputa interna no PT. O grupo ligado ao petista paranaense escolheu o ex-ministro da Secretaria de Relações Institucionais e deputado Luiz Sérgio (PT-RJ) para o posto, que cabe ao PT por uma questão de proporcionalidade. Já a cúpula petista e o Palácio do Planalto trabalham para José Guimarães (PT-CE). 

A presidente Dilma Rousseff quer diminuir o poder de influência do grupo de Vargas, apontado como o responsável por parte da rebelião da base e pela campanha “Volta, Lula”. (PTL)

As bravatas de um deputado enrolado
André Vargas desiste da licença de 60 dias e avisa que reassumirá o mandato depois da semana santa. Investigado por quebra de decoro devido ao envolvimento com doleiro preso pela PF, ele ameaça: "A casa vai cair para alguns"
 
André Vargas renunciou ao cargo de vice-presidente da Câmara. Petista enfrenta a processo no Conselho de Ética, que pode resultar na cassação

Alvo de disparos de aliados e de opositores nos últimos dias, devido às relações suspeitas com o doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, o deputado André Vargas (PT-PR) não sairá da linha de tiro e decidiu nova estratégia: partir para o ataque. Na sexta-feira, ele desistiu da licença de 60 dias do mandato, apesar de ter renunciado ao cargo de vice-presidente da Câmara, e avisou que voltará ao Congresso depois da semana santa. Pelas redes sociais, o petista afirmou que “se defenderá de cabeça erguida”. Em conversa com um blog paranaense, do qual é colunista, reafirmou a disposição para prestar esclarecimentos e deixou no ar uma ameaça. “Vou provar a minha inocência. A verdade prevalecerá. Ainda não tive o direito à defesa, mas, adianto, vou exercê-lo na plenitude. A casa vai cair para alguns”, prometeu, sem dizer quem são esses “alguns”.

Vargas é um dos petistas mais influentes no Paraná e trabalhou intensamente para eleger Gleisi Hoffmann (PT-PR) para o Senado, em 2010. O PT paranaense já tinha decidido, há pouco mais de um mês — antes de estourar a crise envolvendo o deputado —, que parlamentares com mandato e postulantes à reeleição não participariam da coordenação de campanha de Gleisi ao governo estadual. A decisão, agora, se mostra mais do que sensata. Tanto ela quanto o marido, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, sabem que o tema será explorado pelo atual governador, o tucano Beto Richa, candidato à reeleição. “Uma situação como essa nunca é boa”, ponderou Gleisi. 

Alberto Youssef: influência nos bastidores da política paranaense

“Ele (André Vargas) sempre foi trabalhador, mas também sempre foi briguento. Conseguiu muito dinheiro para as prefeituras do interior do Paraná. Deve ter apoiado mais ou menos 100 prefeituras”, disse ao Correio o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR). O tucano, contudo, não sabe dizer se o apoio financeiro decorre de possíveis ligações com o doleiro Alberto Youssef. Segundo Hauly, a atuação do doleiro na política paranaense remonta a 1996, quando ele teria ajudado a eleger prefeito de Londrina Antonio Belinati, então no PDT, mesmo partido do governador Jaime Lerner à época. De lá para cá, o prestígio de Youssef na política local aumentou.

Atuação nos bastidores
Quatro anos depois dessa suposta atuação de Alberto Youssef nos bastidores da política paranaense, Vargas era eleito, pela primeira vez, vereador na mesma Londrina do doleiro. Em 2002, foi eleito deputado estadual. No ano seguinte, o Congresso criou a CPMI do Banestado para investigar as denúncias de evasão de divisas para paraísos fiscais entre 1996 e 2002 por meio de contas do Banco do Estado do Paraná (Banestado). Na época, Youssef foi citado e acabou acertando um esquema de delação premiada para aprimorar as investigações.

A CPMI foi relatada pelo deputado José Mentor (PT-SP). Mentor foi extremanente criticado, sendo acusado pelos oposicionistas de ter criado uma lista fictícia de indiciados para achacar suspeitos de envolvimento com o esquema. Ele também foi autor de um projeto concedendo anistia a todas as pessoas que enviaram dinheiro ilegalmente para o exterior. 

Mentor hoje integra o grupo que dá apoio político a Vargas — eleito deputado federal pela primeira vez em 2006 — dentro do PT. Na quarta-feira passada, dia em que o Conselho de Ética abriu o processo contra Vargas por quebra de decoro parlamentar, Mentor e o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), mesmo não fazendo parte do colegiado, fizeram questão de presenciar o desenrolar dos debates. 

Acompanharam a questão de ordem formulada pelo deputado Zé Geraldo (PT-PA), pedindo a suspensão do processo, já que uma outra investigação contra Vargas estaria em curso na Corregedoria da Casa. O pedido foi negado pelo presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP) e, posteriormente, pelo presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). “Eu fiz isso por uma questão de apoio moral”, declarou Vaccarezza ao Correio, quando questionado se teria ido à reunião do colegiado por curiosidade ou interesse. 

Pelos corredores do Congresso, também há quem garanta que um dos possíveis alvos de preocupação com os desdobramentos da Operação Lava-Jato poderia ser o ex-ministro e pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha. Vargas tentou fechar um contrato de R$ 150 milhões de um laboratório chamado Labogen com a pasta. Segundo investigações da PF, a Labogen pertence ao doleiro Alberto Youssef. Em gravações telefônicas interceptadas pela Polícia Federal, Vargas e Youssef viam no negócio uma “independência financeira”.

Na última sexta-feira, durante ato da pré-campanha ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Padilha negou qualquer preocupação com o assunto. Segundo ele, o contrato da Labogen com o ministério nunca foi fechado. Petistas ouvidos pelo Correio confirmam que o caso ainda poderá trazer dor de cabeça para o ex-ministro, e que Vargas, por meio de interlocutores, estaria deixando isso claro na memória de integrantes do partido. 

"Ele (André Vargas) sempre foi trabalhador, mas também sempre foi briguento. Conseguiu muito dinheiro para as prefeituras do interior do Paraná. Deve ter apoiado mais ou menos 100 prefeituras”
Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), deputado

Relações suspeitas
Confira a sucessão de eventos que levou à saída de André Vargas (PT-PR) da vice-presidência da Câmara após a descoberta da proximidade dele com o doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal

17 de março 
A Polícia Federal desencadeia a Operação Lava-Jato para desarticular organizações criminosas que tinham como finalidade a lavagem de dinheiro, movimentando recursos superiores a R$ 10 bilhões.

23 de março 
Reportagem da revista Veja informa que uma empresa chamada Labogen assinou, com o Ministério da Saúde, contrato de R$ 150 milhões para o fornecimento de remédios. Segundo a polícia, a Labogen, que tem capital de apenas R$ 28 mil, é um dos instrumentos de lavagem de dinheiro de Youssef. O contrato teria sido intermediado por André Vargas.

1° de abril 
Reportagem do jornal Folha de S.Paulo revela que Vargas viajou para João Pessoa, para passar as férias de janeiro com a família, em um jatinho pago por Youssef.

2 de abril 
André Vargas subiu à tribuna da Câmara e admitiu o uso do jatinho, mas alegou que tentou reembolsar o aluguel da aeronave, sem sucesso. E negou envolvimento no contrato da Labogen com o Ministério da Saúde. No entanto, admitiu conhecer Youssef há mais de 20 anos, mas afirmou desconhecer as atividades do doleiro.

3 de abril 
O PSol apresenta ofício à Mesa Diretora da Câmara pedindo abertura do processo de cassação contra André Vargas por quebra de decoro parlamentar.

4 de abril 
A Secretaria-Geral da Mesa rejeita o pedido, alegando que era inconsistente do ponto de vista regimental.

5 de abril 
Diálogos interceptados pela PF e publicados na Veja revelam a intimidade de Vargas e Youssef na busca pelo acerto do contrato entre a Labogen e o Ministério da Saúde. Os dois teriam, segundo a revista, conversado em 19 de setembro de 2013. De acordo com a reportagem, Youssef disse a Vargas: “Cara, estou trabalhando, fica tranquilo. Acredite em mim. Você vai ver quanto isso vai valer... Tua independência financeira e nossa também, é claro...” Um dia depois, o doleiro pediu ajuda a Vargas. “Estou enforcado. Preciso de ajuda para captar... Tô no limite", disse Youssef. O vice-presidente da Câmara afirmou que iria “atuar”. 

7 de abril 
André Vargas entrega na Mesa da Câmara um pedido de licença não remunerada do mandato por um período de 60 dias.

8 de abril 
Durante entrevista a blogueiros, o ex-presidente Lula defende que Vargas explique com clareza as supostas relações com o doleiro, para que o “PT não pague o pato”. 

9 de abril 
O Conselho de Ética da Câmara abre processo por quebra de decoro parlamentar contra André Vargas. Após reunião de emergência da coordenação da bancada, ele renunciou ao cargo de vice-presidente da Câmara, mas não ao mandato.

10 de abril 
A Executiva Nacional do PT define um comitê para ouvir as explicações de Vargas e sinaliza que o caso poderá ser encaminhado à Comissão de Ética do partido.
Fonte: PAULO DE TARSO LYRA Correio Braziliense

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